domingo, 2 de novembro de 2008

O Rato do Campo e o Rato da Cidade


Robson Terra,Juniho Bill e Paulenon

Mais fotos


Papai Noel no Cine-Theatro Central

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Metáfora do Brasil: eleição Lady Kate


Personagem de Zorra Total a hilária Lady Kate, da atriz Katiuscia Canoro, é a sátira e o reflexo do país recente, e de sempre, das eleições negociadas, da fachada, do pendirucalho, do simulacro e do artificialismo, do mais que ter é preciso parecer que tem. O bordão Tô pagaaaaano é a tradução da fase chamada pós-moderna. quando, após a dominação da economia sobre a vida social, alterou-se a definição da realização humana do ser para o ter. E segundo Debord, na sociedade do espetáculo, o ter desliza para o parecer. Isso.Todos precisam parecer que têm. E, às vezes, nem pagam por isso... Mesmo sufocado nos juros do cartão de crédito e o nome no SERASA. Ou na inadimplência com a escola onde o filho recebe educação. Do vazio que se perpetua pela estética sofisticada sem o mínimo de sustentação.

Alegoria e fetiches

As falas do repertório de Lady e sua turma reforçam a máscara social onde é preciso manter a aparência da vida para chegar ao hight society. O mito da ascensão social é um dos pilares da indústria cultural para cativar audiência. Literatura, novelas, quadrinhos, filmes, romances estão recheados de boas histórias sobre o mito de Cinderela. Os artificialismos estéticos fazem da personagem a alegoria ou bazar, a árvore de Natal ambulante a serviço do deboche, irreverência e massacre social que a personagem escancara. Apoiada por marqueteiro afetado e de peruca também é financiada pela prostituição e o senador! Ah, o senador...Esquece o senador. Não.

Alô, Bebel...minha pima!



A atriz é grata revelação no humor da TV. Katiuscia Canoro tem 29 anos, nasceu em Curitiba (PR) e foi criada no Rio de Janeiro. Atua há 16 anos no teatro, como profissional. Dos novos talentos femininos a revelação do humor traz o vigor e a histeria positiva ao gênero que Consuelo Leandro, da melhor safra de atrizes cômicas brasileiros, era a maior referência e deixou a lacuna sem preencher. Lady Kate vem do teatro com o personagem que caiu no gosto da audiência, pois todos nós, mesmo sem dinheiro, sobrevivemos pagando, pagando e pagando. A letra da canção de Sílvio Brito, que todos juram que é de Raul Seixas, já detonava nos anos 70 “tem que pagar pra nascer, tem que pagar pra viver e tem que pagar pra morrer”.

Os novos tempos, representados nas perucas, jóias, bolsas, roupas brilhantes e cenários sofisticados de Kate, ressaltam as palavras-chave do novo tempo: narcisismo, celebridade, esnobismo, fama, notoriedade e hedonismo...E o Salsichão personifica o povo brasileiro subalterno, conivente, refém econômico, serviçal e incompetente aos olhos do patrão e protegido aos olhos da corrupção, da parceria de Kate na casa de madame Sofia, o prostíbulo onde ela conheceu o senador...Esquece o senador. Como esquecer o senador?

Grana eu tenho, só me falta-me o gramour!

O saudoso Fausto Wolff, em artigo de abril, lamentou que só terá interesse o que der lucro. Os artistas e humanistas serão derrotados pela lucratividade. E o que Lady Kate traz como escudo? Não tem coração, informação, nem alma: só moedas na bolsa. O senador, mantenedor da emblemática personagem, aumenta sua conta bancária ao se perpetuar no cargo e fazer do voto mercadoria. Os românticos ainda tentam ganhar eleições com trabalho, projetos e ideais. Morrem na praia. Na recente “Eleição Lady Kate” venceu o tô pagaaano. Pagar garante votos decisivos e o Natal fora de época do miserável do bolsa família. Garante o presente por algumas horas. Promove o atraso social e os desvios de propostas de evolução. Salsichão continua desempregado,

Lady Kate carismática, ferina, cínica, autoritária, poderosa e vazia, reforça o desabafo de Fausto Wolff: “A televisão, em vez de humanizar o homem, o cretinizou, o condenou a um lugar abaixo da mediocridade. Não é à toa que Lee de Forest, ao descobrir como estão explorando o seu invento, se suicidou”.

_Tá bom assim?
_ Tá bô, tá bô,,tá bô... quer dizer, bô, bô, tá não
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quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Close-up: íntima relação


A técnica do close-up criada por David Griffith reduziu os exageros interpretativos e teatrais utilizados pelos atores do cinema dos primeiros tempos.
O close-up reforça a cena dramática tensa onde as emoções são concentradas no mapa de linhas, traços e desenhos do rosto do personagem elemento fundamental da dramaturgia da tela, seja TV ou cinema, expõe tensões e sentimentos da psicologia do personagem na narrativa. A novela “A Favorita” usa e abusa do recurso cinematográfico para expor as canalhices de Flora e seus folclóricos amigos vilãos e a inocência dos pobres enganados na falange do bem: a família do empresário Gonçalo.

O big close-up da tela cheia, inteira, é quase o espelho dos sentimentos da ação expondo ódio, cansaço, intenções ocultas, dores, prazer ou doenças. Está definitivamente marcado nos momentos mais tensos da ação. É diálogo sem fala.

Mas o que consegue o close-up?

Segundo Erwin Panofsky “ao nos mostrar em ampliação, o rosto do que fala ou dos que ouvem, ou ambos, alternadamente, a câmara transforma a fisionomia humana num imenso campo de ação onde – conforme as qualificações dos intérpretes – cada movimento sutil das feições, quase imperceptível a uma distância natural, se transforma num acontecimento expressivo no espaço visível e por conseguinte integra-se completamente ao conteúdo expressivo da palavra falada...”

A tela pode transmitir os sentimentos e sensações. O enquadramento do rosto exige dos atores a representação contida e centrada na emoção interior. Como um pintor que desenha sem pincel de dentro para fora, da alma para o mundo exterior, com seus comunicantes cinestésicos, dos sentidos, comunicando direto ao olho do telespectador. Como um outdoor que sobrepõe ao transeunte a imagem gigante e sufocante para que a mensagem ou estado de emoção seja percebida rapidamente pelo destinatário.

Pregador da verdade

O close permite ao telespectador o contato com a interpretação do ator através do ângulo de significação que transmite emoção e prazer estético do personagem dramático. Para os atores o desenho psicológico da cena exige uma interação consciente de todos os músculos para a expressão facial plena e cheia de significados. Aqui o olho como espelho da alma ganha a dimensão do céu com seus anúncios de mudanças de tempo como a noite, o dia, o raiar do sol, a nuvem escura ou temporal com faísca. O cineasta russo Sergei Eiseinstein, pai da linguagem audiovisual moderna, classificou o close como o pregador da verdade.

Para o intérprete o close-up permite ser deus na construção do universo da alma. O telespectador consegue ver através dos olhos algo que não está na telinha. E apoiado nos elementos estéticos da edição que acompanham a imagem: ruído, diálogo, música e cor. O close-up cria os simbolismos e sua utilização correta e pontual não deixa cair a edição num truque artificial de emoções por segundo que pode se tornar um chavão. As imagens contém algo mais do que a simples comunicação, isto é, quando significam mais que relações ótico-espaciais na procura de íntima ligação com o telespectador.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Obrigado a Deus por 54 anos de vida

Traumas das imagens


Theresa Amayo, como Lien, na novela Passo dos Ventos (TV GLOBO)

Sites como o www.tehistoria.com.br, que nos recebe tão bem, dos mais completos sobre a história da TV, são puro deleite para os apaixonados pelas imagens da telinha e sua epopéia histórica. Busca-se aqui referência do passado recente, pois a história da TV brasileira tem pouco mais que cinqüenta e oito anos. Uma balzaquiana. No primeiro contato com o raro do Tele Historia descobre-se a equipe preocupada com a memória do veículo do efêmero num país sem mem...Esqueci! Programas de todos os canais estão listados aqui e muitos ainda aguardando o complemento das informações sobre elencos, enredos, diretores etc.

A coluna Mofo TV, do colunista José Marques Neto, o "ex-dentista" no Google, remete ao tempo tão longe e tão perto naquilo que Deleuze chamou de memória involuntária. Quem vem aqui busca rever ou reencontrar o contato com as imagens percebidas ao longo da vida e no sofá, como telespectador, nas centenas ou milhares de horas frente ao ecrã. E faz a ponte entre o passado e o presente atualizado por segundo com a programação de hoje, em tempo real, anunciada no "Agora na TV".

Ao encontrar a imagem que marcou a vida ou provocou algum transtorno cura-se de um traumatismo que foi produzido pela tela mágica eletrônica. Se não cair no túnel do tempo do computador, como os vídeos do Youtube, as compras de publicações impressas de época estão fazendo a alegria de vendedores do Mercado Livre. Parte-se em busca do tempo perdido para recompor a história e cultura de cada um.

Imagem verbalizada

Essa imagem da história ou cultura está acorrentada no intelecto do telespectador ou leitor pois a ruptura aconteceu no passado. Explica-se: o procedimento de leitura da fotografia , como é percebido ao primeiro contato, é o mistério que Bruner e Piaget ajudam a esclarecer: “não há percepção sem categorização imediata, a fotografia é verbalizada no momento mesmo em que é percebida ou melhor ainda: ela só é percebida verbalizada (ou se a verbalização tarda, há uma desordem na percepção, interrogação, angústia do sujeito e traumatismo). Assim a imagem percebida é apreendida imediatamente por uma meta-linguagem interior”.

As cenas que vão promover o traumatismo vão depender da história de vida do telespectador (ou leitor) da sua cultura, do entendimento e conhecimento do mundo. Isto. Cada um tem o seu mundo de coisas, único, específico e particular. Individual como a impressão digital que ontem era "coisa de analfabetos" e, hoje, o que há mais sofisticado da "tecno" em identificação legal e controle de patrões sobre empregado.

Cenas categorizadas

Colecionadores apaixonados buscam capas de revistas, fotonovelas, fotografias de jornais, álbuns de família, músicas eternas, cenas de filmes ou novelas que ficaram como seqüela na memória para reconstituir os signos que categorizaram suas vidas. "O trauma é inteiramente tributário da certeza de que a cena realmente teve lugar". Cenas traumáticas, dizem os teóricos, são raras. Milhares passam despercebidas e não geram marcas. Outras são as fotografias traumáticas que Roland Barthes cita como incêndios, naufrágios, catástrofes e mortes violentas que foram colhidas "ao vivo".

Entre os traumas imagéticos do colunista estão a primeira aparição dos Secos e Molhados, no Fantástico, em 1973... Dos anos 60, a novela com Tutuca "O Xerife Jiló contra a quadrilha do terror", o Doutor Valcourt, de Sérgio Cardoso em "O preço de uma vida”, os humorísticos com Consuelo Leandro, "A festa do Bolinha" com Jair de Taumaturgo, na saudosa TV Rio; o programa do Capitão Furacão e a chinesa Lien, personagem de Theresa Amayo em "Passo dos Ventos", da TV Globo e, recentemente, a cena da morte de Odete Roittman e a cobertura dos atentados de 11 de setembro. E você? Liste aqui as imagens de suas buscas...

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Identificação: fenômeno dramático

A TV brasileira era o altar sagrado onde deuses olimpianos celebravam a submissão de milhões de telespectadores. Acima do bem e do mal impunham à audiência a programação que “bruxos” da criação consideravam conveniente. Por muitos anos deu certo. A TV brasileira alcançou índices estratosféricos no Ibope. Essa estratégia deu tão certo que está mumificada há mais de trinta anos. Poucas são as novidades. Criatividade fragilizada.

O segredo estava no fenômeno da identificação da audiência com a grade de programas que ela não podia escolher e era escolhida. Assistia-se ao que os executivos competentes decidiam nos gabinetes mitológicos. Com as novas mídias o cordão umbilical se rompeu, a audiência pulverizou-se e é preciso buscar o elo perdido, ou pelo menos, segurar, por mais algum tempo, os telespectadores ainda cativos.

Prazer da imitação

Aqui a palavra identificação é a chave para se entender esse domínio sobre a audiência. Vem da teoria psicanalítica como “a forma mais originária do laço afetivo com um objeto”. A chamada “fase do espelho” quando o telespectador se identifica com seu próprio olhar e se sente como foco de representação, como sujeito privilegiado, central e transcendental da visão. É o lugar de Deus, de sujeito que tudo vê e se vê ”.

Ou como citou Friedrich Nietzsche, a identificação é fenômeno dramático fundamental, presente em todas as artes do espetáculo, que é “ver a si mesmo metamorfoseado diante de si e agir agora como se tivesse entrando em outro corpo em outra pessoa”.

Interatividade artificial

O frenesi pela identificação justifica a interatividade excessiva e artificial promovida como isca pelos programas. Está no vídeo do seu filho na TV, sorrindo ou chorando, o concurso do bebê mais bonito, o bola murcha e o bola cheia, quadros como “De volta para casa”, o BBB, no bate-papo com a estrela após a participação no programa, nas perguntas dos internautas respondidas durante o futebol ou transmissão do carnaval, do fã de carteirinha ou o slogan “A gente se vê por aqui” e outros. Interatividade a todo custo para manter cativa a audiência.

A novela “Três Irmãs” busca essa identificação com estrelas do horário das oito. Para trazer os jovens de volta para frente da telinha ao mundo do surf se juntam mocinhas e garotos, um festival de pranchas e equipe especializada em filmagens nas ondas. Ao mesmo tempo busca reforço no elenco maduro e situações já vistas destinadas ao público mais velho.A personagem de Regina Duarte é a mistura de Mary Poppins (do cinema) com a antológica Viúva Porcina, com o mesmo sotaque e menos histeria.

O público da TV “se identifica por simpatia a este ou àquele personagem em virtude de seu caráter, de seus traços psicológicos predominante de seu comportamento geral, assim como na vida sentiríamos simpatia por alguém, devido, acredita-se, à sua personalidade”.

Malhação, Malhação e Malhação

A TV tem grande capacidade de mudar a embalagem do mesmo produto e talvez esteja aqui o segredo do seu sucesso ou da fuga da audiência que já não suporta ver o mesmo enredo repetido eternamente com o rodízio de personagens/atores. Se as pesquisas sobre fuga de audiência revelam o jovem como vilão, que após a “Malhação” foge para a Internet, a saída foi criar a “Malhação” das seis, a “Malhação” das sete. Após o Jornal Nacional tudo está mais ou menos garantido. Por enquanto...

Encerrando com Roland Barthes: “Devoro com o olhar qualquer rede amorosa e nela detecto o lugar que seria meu se dela fizesse parte”.