
Inclassificáveis: a dicotomia do presente em Ney
Robson Terra
Mestrando em Comunicação
Inclassificáveis, novo show do mítico Ney Matogrosso, que estreiou em Juiz de Fora, revelou supresas, beleza e protestos em sua apresentação no Cine-Theatro Central. O repertório musical, em interpretação magistral, define o que Ney denuncia no novo trabalho. As ilegalidades e falcatruas do poder que engordam contas bancárias e folhas de corrupção, a imoralidade da sociedade contemporânea são as mazelas expostas... O espetáculo tem a marca de Ney, desde o fim dos Secos e Molhados, de não fazer concessões, de ousar sempre. Um show político. Atrevido. Ele canta o que quer e como quer. É um privilégio que cantor não abre mão. Por isso, é reverenciado há mais de trinta anos. As músicas pouco conhecidas, não geram identificação com a platéia que busca o chica-chica-bum, a movimentação frenética, irreverente e o imaginário musical dos anos 70 e 80. "Mal necessário", de Mauro Kwitko, sucesso dos anos 80, ajuda a compor o mosaico de confissões subliminares que o artista sugere. A surpreendente "Cavaleiro de Aruanda", de Tony Osanah, gravada por Ronnie Von, nos anos 70, envolve o público no passeio místico que Ney ameaça fazer, mas não completa. São dois shows.Visual e repertório.Duas leituras. A estética com apelo à memória da carreira e pesquisa de materiais ousados e inovadores e o repertório de vanguarda, político, de protesto, mas distante do aspecto do envolvimento do visual. Imagens de sonho para escancarar a realidade de pessoas inclassificáveis. Nós. A beleza e riqueza estética do cenário de Milton Cunha e figurinos inspirados de Ocimar Versolato remetem a ambientes diversos emoldurados por telões gigantes, ao fundo, que caem no alinhavo do roteiro, como páginas de um livro que o artista escreve. Impactante. Pinçando frases aqui e ali, do repertório, em sua maioria da novíssima safra da música popular brasileira monta-se o grande memorial da vida, obra e personalidade do artista. É confessional e testemunhal, remetendo, em síntese, ao "é preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte". São vinte e uma canções - Cazuza continua onipresente - desfiadas em virtuose de um dos melhores intérpretes do Brasil, em atuação vigorosa.Mais duas para o bis e aparece, aqui, o melhor figurino do show. A voz claríssima acentua recursos brilhantes. Ney estampa frescor juvenil na emissão potente e clara dos agudos e nuances interpretativas que o público fiel e cativo conhece. Mas não reconhece. Perde a empatia de outros shows como "Bandido" e "Destino de Aventureiro". O público não identifica o repertório. A estética exótica, quase intergalática do clipe de "Flores astrais" de 1974, reaparece, seduz, é onírica, de sonho, mas as canções não dominam a emoção, não estimulam o sentimento ou catarse de outros momentos da carreira. O resultado é dicotômico.
Em eterna metamorfose ambulante as nuances interpretativas e corporais continuam sendo o estandarte do artista. Corpo coberto por malha fina bordada e outra estampando desenhos exóticos, figuras egípcias, tangas e tangas, rumbeiras e capacetes magistrais remetem aos melhores momentos da carreira de Ney. E um divã que serve de apoio para a troca de roupas e pequenos descansos. O teleprompter, dispositivo eletrônico, para ler as letras,que ele afirmou em entrevista não ter decorado, ainda, limita a movimentação do cantor. Ele quase não sai do centro do palco, sobe uma rampa, mas não apresenta a feérie que o público exige. A iluminação espetacular é o trunfo para criação do clima onírico e tem lugar garantido no melhor do show. Uma especialidade do artista. A banda é competente e segura. Ney permite, com extrema generosidade, sentado no divã, que os músicos façam participação intimista rica. Os músicos Júnior Meirelles e Emílio Carreira são emblemáticos na definição do show. Emílio, do tempo dos Secos e Molhados é figura de ontem, com presença juvenil e definitiva, na direção musical. Envolvente. Júnior Meirelles, jovem artista dá pistas do potencial além da guitarra e violão.Tem um timbre de voz rico e participa do melhor número do espetáculo, quando os músicos sentam no divã e cantam juntos, em dueto inusitado.A intuição sensível de Ney desenvolve a lembrança do passado com Emílio e faz a ponte com o futuro em Meirelles. Mágico. Nesse momento, interpretar "Pra não morrer de tristeza" levaria o público ao delírio. O nome das músicas não se sabe pois não havia programa ou roteiro disponível para o público. Os aplausos são profissionais, reconhecidos, mas sem a overdose de outros momentos. Ney continua devendo um show com o repertório que o consagrou e faz o público cativo, que buscas pistas de reconstrução das emoções da carreira e que ele, intuitivamente, não oferece.