quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

QUEM É ROBSON TERRA?

A imaginação do sonho possível


Nasci Robson Terra, em 28 de setembro de 1954. Parece que foi ontem que me
descobri menino pelas ruas de Chácara, Minas Gerais, caminhando pelos trilhos nos pastos que levavam ao sítio de minha avó Piedade. Marlene Terra, meu pai com nome de mulher e Maria de Lourdes Morais Terra, a mamãe, diziam que eu era a celebração do grande amor que eles viveram. Cresci frágil, rodeado de cuidados pois as doenças da infância já haviam levado minha irmã Terezinha. Vi nascer Gilmar e Deise, manos queridos. Morava em frente ao Grupo Escolar Barão do Retiro onde aprendi as letras, detestava números e imaginava histórias. O rádio era o companheiro preferido dos parentes e assim a comunicação começou a entrar em meu sangue nas ondas Rádio Nacional do Rio de Janeiro com a sedução de vozes como as de Daisy Lúcidi, Roberto Faissal, Domício Costa, Elza Gomes, Abigail Maia e os programas de auditório onde Marlene e Emilinha disputavam aplausos de fãs enlouquecidas. Ah, as novelas da Nacional me estimulavam varrer o terreiro de casa em três horários, onde narrava e vivia histórias de amores dolorosos e finais encantadores.

No Sítio dos Pintos, onde moravam os avós paternos e tios inteligentes, conheci as revistas, num caixote que ficava debaixo da cama de Piedade. Ao puxar a caixa para ler os gibis tinha a sensação da descoberta de um tesouro de sonhos, letras, desenhos e fotos que faziam a ponte com o mundo além das bananeiras e estradas poeirentas. Em 1964, após o Concílio Vaticano II, que desmontou o rito da Igreja Matriz de São Sebastião, e a “Revolução de 64”, papai, lavrador, comprou um dos primeiros aparelhos de televisão da cidade. Eu rezava diante da caixa mágica como se fosse a nave da Igreja. Vi Sérgio Cardoso com o Dr. Valcourt de “O preço de uma vida” e Nívea Maria, mocinha. Assisti quase todas as novelas a partir dali. Lembro-me de atores e cenas inteiras. Theresa Amayo, Glauce Rocha, Marieta Severo, Henrique Martins,Sérgio Cardoso e Ana Ariel eram meus ídolos.Acompanhei a ascensão e queda de várias emissoras de TV e rádio.

O arcabouço da comunicação se estruturava em minhas fantasias. Montava pequenos espetáculos de circo, quebrando elementos de antena da TV, para transformá-los nas peças do atirador de facas.Ana Clara, minha prima e parceira, corria o risco de levar uma flechada. Os vilões de novelas que me cercavam na TV e rádio, apareciam nas ruas da cidade, na profunda estranheza que eu causava num ambiente rude e sem sensibilidade. Enfrentei a rejeição de meio mundo com coragem e determinação pois antevia que a felicidade de viver na pachorrenta cidade, passava pela imaginação. Ela sempre me salvou nas situações limite que vivi. Era capaz de desmaiar, de mentirinha, quando alguém queria me agredir. Mais tarde descobri que só o teatro salva! Fui ser coroinha pois o ritual canônico me seduzia. Fui expulso pelo padre pois transformei a minha igreja num teatro (de verdade!). Fotonovelas aos montes,ídolos como Michela Roc, Sandro Moretti, Maria Giovannini,Germano Longo, Gabriela Farinon, Franco Andrei e Rossela Daquino, a contação de histórias da avó materna Maria Espanhola, programas de rádio, os livros de alfabetização “As mais belas histórias “de Lúcia Casassanta, quadrinhos infantis e até o missal da Igreja ocupavam o tempo livre para estimular o mundo da fantasia.
O cinema aos sábados e domingos, os filmes B dos anos 1930, como "Aliado Misterioso", circos e touradas que passavam por lá competiam com o meu amor pelos ciganos que aportavam nos pastos. Era louco para ser roubado por eles.Ao som de Caetano Veloso em Alegria, Alegria, me descobrir homem. Indescritível o primeiro prazer estimulado pela imaginação...ela de novo! Vi o homem pousar na lua, conclui o famigerado ginásio comercial e sabia que a alforria do universo rude estava nos estudos.
Cheguei em Juiz de Fora, em 1970, junto com a conquista do tri-campeonato da seleção brasileira. Descobri o teatro no Grupo Divulgação, onde fiz escola por doze anos envolvido com a pesquisa da dramaturgia brasileira e pensadores estrangeiros. Na troupe dirigida por José Luiz Ribeiro, renomado diretor de teatro e professor universitário, descobri a comunicação como ciência. Enlouqueci. Então ler revistas, livros, ouvir rádio e ver televisão não era “coisa de vagabundo” como ouvi a vida inteira na rua? O Secos & Molhados, com Ney Matogrosso, assinava novas posturas em minha vida artística. Mergulhei no universo dos meios e mensagens. Aprovado entre os primeiros no vestibular de jornalismo da Universidade Federal de Juiz de Fora, em 1974, o patinho feio descobriu-se cisne. Porém, outro impasse se apresentava: a falta de dinheiro para tudo! Um concurso para o Banco do Brasil resolveu a situação da família. Casa, dinheiro, carro, enfim o mundo da sobrevivência estava conquistado. Banco, teatro, família, pesquisas, viagens, carnavais e produção cultural, pautaram a nova vida até 1995, quando o Banco do Brasil, promoveu o plano de demissão voluntária. Com a indenização desenvolvi o projeto “Teatro vai à escola” de difusão da arte cênica para mais de quinhentas mil crianças. Fui estudar marketing para vender. Que nada! Sou artista! Com a explosão de universidades privadas, no Brasil, hoje, busquei espaço como professor de assuntos sobre a televisão, revistas, rádio, cinema e expressão cênica. Já
paraninfei várias turmas. Vivo da imaginação que aliada ao conhecimento me faz sentir respeitado na cidade e região. Em rede nacional vivi grande transformação ao ser convidado para sentar no sofá do Programa do Jô, em 2004. Meu lugar no mundo mudou. Conquistei o titã da comunicação com imaginação.
Hoje, alinhavo fases da vida e momentos vividos ao conteúdo das
disciplinas do Mestrado, que promove novamente o meu encontro com os cisnes do
conhecimento. Esperei trinta anos por essa celebração. Reencontro minha biblioteca
amarelada pelos anos. Ela saltita de felicidade ao perceber que os livros esperaram anos e a hora certa para fundamentar pesquisas. Estão muito inquietos e bailam a noite inteira. Quase não me deixam dormir.

Dona Titinha, a mamãe, faleceu há treze anos, mas hoje, sabe, que os desenhos que eu fazia no fubá ou farinha de trigo, as novelas ao varrer o terreiro e as músicas que cantava, me salvaram e garantem a sobrevivência com simplicidade, mas tranqüila. Enlouquecido pelo trabalho e a realização artística, não investi no amor pois a minha vida é como uma fotonovela que se renovava a cada semana, ou capítulo diário de folhetim.
Preciso viver novas histórias todos os dias.E imaginar finais felizes!

Um comentário:

Unknown disse...

[b]Robson Terra,ele é uma pessoa maravilhosa,e tudo que escreveu me deixou muito emocionada pois é da mais pura verdade tudo isso.Voltei no tempo e recordei essa beleza de infância pobre mas muito verdadeira"!E Robson estava lá pra completá-la maravilhoso e inteligente desde sempre.Aonde está hoje é merecidamente.E espero com seu amor a arte,venha galgar e realizar mais sonhos.Um beijo e te amo muito!!